O Mundo dos Titãs

150

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor:Danilo Nascimento da Silva

Capítulo 150 – O Mundo

“Eu, Narrador”

 

O grande salão se estendia com várias luzes espalhadas em volta. Havia uma mesa grande quadrada com cerca de cinco lugares em cada lado, vinte bancos se espalhavam desorganizados pelos lados. As paredes em volta eram pintadas de azul escuro o que dava um ar meio frio ao local. Havia uma estante com alguns livros velhos, uma cômoda com algumas gavetas no canto ao lado da estante e no fundo estava o trono metálico com uma almofada grande por cima.

A frente do trono estava em pé o Deus das Trevas em sua forma criança segurando o globo negro assistindo a batalha dos recentes titãs que acabaram de chegar. Do seu lado direito quase encostada ao braço da poltrona estava Akasha em pé, arrumada e cheirosa trajando um belo vestido, seus cabelos estavam bem penteados caindo delicadamente sobre seus ombros. Ela estava linda, já esperando por aquele momento. Do outro lado estava a garota que o acompanhava na maioria de suas viagens, usando seu costumeiro sobretudo branco com capuz, ela sempre mantinha o rosto escondido e fazia isso até quando não era necessário.

Dos dois lados a frente das duas, estavam a maioria dos domínios em pé e em fila virados para o meio. A frente de Akasha seguia, Danilo o Terceiro, Dérius o Sétimo e Zarram o Sexto domínio, aquele que controlava os fantasmas. A frente da outra moça de capuz estavam, a Quarta Domínio, uma moça bonita de pele bem branca, com longos cabelos lisos e prateados, do lado dela estava o nono Domínio que era capaz de criar barreiras invisíveis.Por último o oitavo Domínio que podia se transformar em qualquer um. Todos eles mantinham a posição com as cabeças viradas assistindo a visão no globo.

― Parece que Zorrey está se divertindo com eles ― comentou Órion sorrindo, ele sabia que tudo aquilo era parte dos seus planos.

― Finalmente vou poder me mostrar para Kyoran ― disse o nono Domínio lançando um largo sorriso, a ideia de revê-lo estava o animando.

― Ele é bem bonito, sempre achei Dante um gato, com ele eu me deitaria, sem ofensas Karen ― disse a Quarta com um sorriso virando o rosto para a garota de capuz. Dois olhos brilharam em tons violetas de dentro do capuz olhando a quarta Domínio a sua frente.

― Isso não é justo, porque você não fala assim de mim? ― perguntou o Nono um pouco chateado.

― Por que você não tem graça, eu gosto de homens quentes e poderosos ― disse a quarta Domínio exibindo a língua formando uma careta para o Nono que ficou a olhando chateado.

― Aquele maldito sempre teve a vida mais fácil que a minha e mesmo em outro mundo isso não mudou pelo visto ― o Nono não pôde deixar de se sentir deprimido sabendo que Kyoran já tinha Lilithi e ainda por cima o interesse de Natalia, ele vinha cercando ela há dias tentando ter qualquer coisa com a mesma e não conseguiu nem um simples beijo.

― Fiquem quietos vocês dois, isso não é hora pra esse debate estúpido ― disse o Oitavo mantendo a seriedade. Ele era aquele que havia plantado a marca em Kyoran, o titã transformista.

― Não está na hora de trazer Lilithi de volta senhor? ― perguntou Zarram em tom sério olhando Órion, mesmo que aquele em sua frente estivesse em forma de criança ninguém ousaria desrespeitá-lo.

― Tem razão eu quase estava me esquecendo dela, quando a hora chegar Kyoran deve ver com seus próprios olhos o que acontecerá se ele não reconhecer a verdade ― Órion estendeu a outra mão e concentrou seu poder na palma. Um grupo de cinco estrelas escuras foi formado em sua palma e ficavam tremulando, ele fechou a mão fazendo a energia que formava as estrelas, virarem fumaça cinza que ficou em volta de seu punho fechado evaporando. Aquilo era a ativação que finalmente traria Lilithi de volta para o esconderijo depois de tanto tempo.


            Muito longe dali em uma fazenda ao lado do território dos Tenebris. Lilithi seguia seus dias com seus mais inusitados colegas de teto. Os ligados tinham diversos locais para ficarem quando não estavam no ninho e aquela fazenda era só mais uma delas. Uma casa grande com três andares e vários quartos. Lilithi não podia reclamar de nada além da saudade que sentia de Kyoran.Ela estava sendo bem tratada e respeitada pelos demais.

Vanessa às vezes levava Lilithi para tomar um banho em uma cascata próxima, ela estava mesmo tentando ser legal, assim como Lilithi fazia o maior esforço para retribuir, ela sempre se lembrava de que Kyoran vivia reclamando dela de não ter outros amigos. Vanessa conhecia sobre a dificuldade de Lilithi fazer amizade e por isso não ligava muito quando Lilithi agia com frieza as vezes, ela estava fazendo o maior esforço para tratar Lilithi bem evitando pensar que foi o grupo dela que tirou a vida de seu irmã.Os dragões também já tinham passado a real situação que nos próximos dias tudo mudaria, sua inimizade com eles deveria acabar o mais breve possível.

            Seiger vivia jogando um jogo parecido com xadrez com Ector ou qualquer um que aparecesse, isso incluiu Lilithi que conhecia o jogo. Ela havia jogado com alguns parentes de sua família tempos passados e isso trouxe a ela uma certa nostalgia. Os ligados não a tratavam como inimiga e isso estava a impressionando.

            Os horários de café, almoço, lanche da tarde e janta eles faziam todos juntos. Vanessa estava até ensinando Lilithi a cozinhar, a mesma estava interessada em aprender coisas novas para fazer quando tivesse a chance de morar com Kyoran, Ector também ajudava na cozinha e algumas coisas ele fazia até melhor que Vanessa e também ensinava Lilithi.

Os dias em que ela estava com eles se seguiram tranquilos. Desde que Lilithi não usasse sua armadura de Domínio, ela não chamaria qualquer atenção desnecessária, isso porque muitas vezes comerciantes e viajantes passavam com suas carruagens.O local a frente da fazenda era praticamente a trilha central que dava acesso a vários outros pontos importantes. Apesar de toda a movimentação aquele era um dos locais mais seguros para eles ficarem.

            Quando Lilithi ficava entediada, ela se deitava na grama do quintal atrás da fazendo e ficava cantarolando sozinha enquanto olhava para o céu se lembrando de Kyoran e pensando em seus momentos com ele.

            Seiger às vezes ia na cidade e trazia até presentes para Lilithi como roupas ou livros, eles estavam tentando agradar ela o máximo que fosse possível e ela reconhecia isso. Mesmo em poucos dias ela acabou reconhecendo que eles pareciam bons titãs e que se sentia um pouco chateada por ter pensado mal deles no começo, na verdade ela pensava assim de qualquer um.

            No final do almoço daquele dia ela estava ajudando Vanessa com a louça, Vanessa lavava e ela secava e guardava quando sentiu seu peito queimar. Deixou o pano no secador de louça e levantou a blusa olhando os próprios peitos, as estrelas brilhavam e pulsavam a avisando. Vanessa se virou curiosa olhando e acabou vendo o brilho junto a Lilithi.

― Eu preciso ir agora, meu deus está me chamando ― disse Lilithi sem dar maiores explicações, se virou e saiu caminhando, se dirigindo a sala.

― Lilithi? Pra onde vai? ― perguntou Vanessa largando a louça e seguindo atrás dela.

As duas passaram por Seiger e Ector que estavam em uma disputa no tabuleiro, vendo Vanessa preocupada se levantaram e seguiram juntos. Lilithi foi parar no quintal atrás da fazenda, procurou o local com pior gramado porque ia acabar queimando tudo.

― Lilithi o que está acontecendo? ― perguntou Seiger parado junto com os outros olhando ela se agachar. Lilithi se sentou, cruzou as pernas e prendeu seu queixo entre os joelhos, deixou os braços tampando as laterais de seus peitos. Os ligados ficaram ainda mais confusos sobre aquela cena.

― Meu deus Órion me chama, ele vai me puxar em poucos instantes ― disse Lilithi se virando de lado. Deixando os ligados ainda mais confusos que se olharam entre si.

― Acho que nos veremos em breve novamente ― disse Lilithi e suas roupas começaram a queimar, enquanto um fogo a cercava formando um círculo perfeito em seu corpo, todo o chão em sua volta queimou apagando e transformando em cinza toda a grama. Lilithi começou a flutuar dentro daquele vidro redondo em chamas e todos os ligados ficaram surpresos.Não tiveram tempo de pensar muito sobre isso, logo Lilithi foi puxada para cima e atirada para direção sul sumindo em poucos segundos no horizonte em uma terrível velocidade.

            Enquanto as nuvens e paisagens passavam aceleradas, Lilithi se dirigia dentro da bola apertada, ela não conseguia deixar de pensar se todo o plano iria mesmo dar certo, Órion tinha feito muita coisa para aquele momento, Kyoran não poderia nem sonhar em recusar.


            Do outro lado da fronteira nos territórios dos Tenebris as carruagens passavam pelas estradas de terra levantando um pouco de pó. As pessoas que presenciavam a cena, não imaginavam que dentro daquelas carruagens continham uma criatura mística extremamente linda e perigosa. Helena e suas garotas precisavam urgentemente passar em um rio, faziam dias que elas estavam fora da água e isso as deixavam mais fracas, por isso iam acabar se atrasando um pouco mais.

― Estamos quase chegando, o rio aparentemente não é muito visitado ― disse André olhando para sua mestra de lado. Helena estava por trás das cortinas transparentes da carruagem, ela se arriscava ficando apenas um pouco a vista para também ter o direito de ver as paisagens, seria difícil alguém notá-la tão facilmente de qualquer maneira.

― Assim espero, precisamos passar pelo menos um dia inteiro no rio ― disse ela. Helena não conseguia parar de pensar no seu último encontro com Kyoran, a maneira que ele agiu com ela, tratando ela como uma mulher normal, sem se jogar aos seus pés ou sem ter medo dela, tinha sido realmente interessante. Toda vez que ela se lembrava disso não conseguia parar de sorrir, será que vendo ele cara a cara, ele a trataria da mesma forma? Se fosse o caso, talvez ela não precisasse mesmo matá-lo.

Todas as filhas apertaram seus lábios e suspiraram sentindo o desejo sexual da mãe, eles não compreendiam aquele sentimento que ferviam seus corpos e as faziam querer gemer mesmo sem sentir dor, afinal elas nunca tinham tido interesses sexuais antes por nenhum homem e ali estava a mãe delas tendo isso enquanto lembrava de Kyoran, todas tiveram o mesmo pensamento sobre o mesmo homem.


O coliseu cercado por pilares gigantescos se estendia, arquibancadas eram formadas em modo escada como se fosse um estádio de futebol, tudo feito do mais duro cimento e pintado de branco. Hoje estava lotado como de costume e embaixo no centro do coliseu, dois titãs de patente Veteranos disputavam com todas as suas forças uma vaga para entrar no exército principal do rei Aziel trocando poderosos golpes com as armas carregadas de aura.

A rainha Brenda e o próprio rei estavam sentados na divisa principal do coliseu no centro, onde só a família real e os protetores ficavam. Atrás deles em pé seguia um esquadrão de dez titãs todos de branco em fila de mãos para trás. A rainha Brenda e o rei Aziel, eram os únicos com acentos macios feitos de veludo sobre duas poltronas escuras onde continham até mesmo uma tenda vermelha armada por cima que era presa sobre quatro grades de metal que os cercava.

― Como será que nossos filhos estão? Nesse momento já devem estar atacando ― disse Brenda olhando o rei de lado. Seus brincos de ouro brilhantes balançavam deixando o rosto da rainha mais bonito.

― Hoje é um dia importante, aquele ser desprezível finalmente irá perecer ― disse Aziel que parecia estar despreocupado.

― Outra visão? Tem certeza da vitória? ― perguntou Brenda interessada.

― De um jeito ou de outro vamos vencer ― concordou o rei sem medo.

― Se os deuses realmente estão do nosso lado, não há mesmo nada com que se preocupar ― disse a rainha sorrindo e voltou a assistir a batalha.

― Você nem faz ideia mulher ― disse baixinho o rei Aziel abrindo um sorriso tranquilo enquanto via um dos titãs finalmente decepar o outro. O titã morto caiu inerte no chão enquanto sua cabeça voava espirrando sangue para todos os lados. O público se levantou gritando de emoção e batendo palmas, a luta tinha agradado a maioria. O titã que venceu levantou a espada na direção do rei Aziel e gritou o mais alto que pôde diante de toda aquela euforia.

― Poderia me dar um minuto meu bem, Eu já volto ― disse a rainha satisfeita se levantando e arrumando a parte traseira do vestido antes de sair. Depois ela seguiu caminhando para a escada lateral e começou a descer com cinco protetores atrás. O rei Aziel ficou pensativo enquanto via sua mulher descendo. Órion não poderia permanecer vivo, seria um desastre, depois que ele morresse os Iluminados cuidariam do resto, das pontas soltas.


            No território de Estela, dentro do seu castelo no salão real, ela estava sentada em sua poltrona quando dois titãs entraram carregando o homem magro de pele morena clara e o atiraram de frente a ela. O homem caiu no chão atrapalhado e agachou se ajoelhando. O olhar de Estela brilhava com fúria contra ele, o maldito feiticeiro, não tinha conseguido roubar o anel que estava no esconderijo de Kyoran, o mesmo tinha dito que não seria uma tarefa difícil.

― Saiam todos! Me deixem sozinha com ele! ― ordenou Estela.

Não só os homens que o trouxeram como todos os outros demais que ficavam de prontidão em volta de Estela fazendo sua proteção se retiraram. Quando as portas duplas foram fechadas e ela teve certeza de ficar só, se levantou irritada da poltrona encarando o homem com frieza.

― Seu monte de merda! Será que eu não te paguei o suficiente? Por que você me garantiu um trabalho que não pôde cumprir? ― perguntou ela furiosa olhando o homem a frente dela.

O homem  tremia de medo, não era sensato irritar uma princesa do reino Luminus.

― Mil perdões princesa! Eu não imaginei que teria uma titã presente no ninho ― disse o feiticeiro abaixando a cabeça, ele havia sido o único a conseguir escapar na ocasião do ataque.

― Isso não é problema meu, por causa da sua falha minha irmã me roubou meu momento de glória e ainda ameaçou contar tudo pro rei, tem ideia do quanto irritada estou nesse momento ― Estela dizia enquanto uma aura assassina fluía de seu corpo, ela dava voltas encarando o pobre miserável. O feiticeiro não pôde deixar de tremer de medo.

― Eu imploro a senhora, me dê mais uma chance! Por favor! Eu não irei falhar novamente ― gritou ele abaixando a cabeça quase beijando o chão a frente, ele não ousava levantar o rosto.

― É claro que eu vou te dar outra chance ― disse Estela parando de frente a ele e estendendo a mão direita, sua aura branca foi acumulada no braço e ela juntou os dedos alinhando eles, a aura cobriu todo o braço e mão formando uma espada de aura branca afiada.

― Obrigado minha princesa, muito obrigado ― disse o homem aliviado ainda com a cabeça abaixada, ele não fazia ideia de que Estela já tinha decidido o seu destino.

― Mas só em outra vida ― disse a princesa com desdém levando o braço com a espada de aura para trás. Quando o feiticeiro levantou o rosto preocupado já era tarde, seu peito foi perfurado pela aura de lâmina e seu corpo foi estendido no ar conforme Estela levantou o braço para pendurá-lo. Estela não se incomodou com o sangue que gotejava em sua espada de aura pelo seu braço e fumaçava como água batendo em brasas.A fumaça subia causando um cheiro desagradável enquanto o miserável se debatia desesperado. Morrer para ele não era só morrer, era ter o resto de sua eternidade servido uma entidade espiritual ao qual ele tinha feito o pacto.

― Por que? ― perguntou ele em meio a dor e suas mãos queimaram quando tocaram a espada de aura de Estela na tentativa de se soltar, ele gritou ainda mais vendo suas mãos borbulharem em carne viva.

― Ninguém quebra uma promessa comigo e sai vivo para contar a história ― disse Estela e para terminar o trabalho, mandou um impulso de aura como uma onda que correu por todo o braço e seguiu para a ponta perfurada entre a carne e ossos do infeliz. O corpo dele sofreu uma explosão por dentro devido essa última ação de Estela.Ossos, sangue e carne com pedaços de pele voaram para o lado. Estela sorriu mesmo tendo parte de seu belo corpo coberto por restos daquele lixo de gente. Agora tudo que ela precisava era tomar um belo banho para aliviar o stress.


            Na cidade de Montane. Lara estava se balançando na cadeira de cordas no quintal da frente olhando as pessoas passando pela rua. O céu estava se fechando e em poucos minutos uma chuva começaria. Em seu peito ainda queimava aquele sentimento de perda que ela carregou por vários anos de sua vida. Ter visto Kyoran a pouco tempo tinha lhe trazido mais lembranças dolorosas do que ela podia pensar. Ela escolheu não virar titã e seguir uma vida normal, então envelheceu como uma simples humana, seu corpo agora era fraco e frágil, mas ela nunca esqueceu as aventuras que teve ao lado de Dante e Kyoran em outro tempo distante. Isso fazia ela sorrir quando se lembrava, mas não se arrependia, ter toda aquela paixão e não ser correspondida devidamente era muito pior e muito mais doloroso.

A velhinha sorria e chorava sem parar de se balançar enquanto muitos passavam olhando sem imaginar as coisas que corriam em sua cabeça, sem fazer ideia que aquela fraca mulher já foi uma titã incrível, com poderes que balançariam até os céus.

Lara jamais esqueceu de sua morte em frente a Kyoran quando Lucas tirou sua vida, ela se lembrava do olhar de desespero de Kyoran, dava angustia nela só em pensar nisso, era muito melhor ela ser apenas uma velha, pelo menos ela não lhe daria também essa dor outra vez.

― Mãe vem pra dentro, você não está vendo que vai chover? ― perguntou Zana surgindo na porta. Nesse momento veio uma crise de tosse em Lara e ela começou a tossir fortemente fazendo o balanço cessar. A pouco tempo ela vinha ficando cada vez mais doente, seus dias estavam contados.

― Mãe! ― Zana não podia deixar de se sentir preocupada, enquanto corria para acudir sua mãe de criação.


            Não muito longe dali um homem seguia caminho viajando com sua carruagem coberta por cortinas escondendo qualquer coisa que ele pudesse carregar. Caio sempre usava muitos nomes diferentes quando ia vender os quadros de Dante, ele também vivia com um chapéu de couro escuro na cabeça, cobrindo todo seu longo cabelo escuro, amarrado e enrolado embaixo do chapéu, para ninguém reconhecê-lo. Foi uma tremenda sorte que das três princesas dos Luminus, Yasmin foi justamente aquela que o pegou. Ele riu sozinho lembrando que a pequena e linda garota, ele tinha salvado a vida dela de verdade muitos anos atrás na época que ela realmente tinha aquela idade, quando Yasmin se lembrou, voltou a sua forma natural. É claro que ele a sentiu desde o começo, sua cegueira física, era somente física, ele usava um óculos escuro para cobrir os olhos, mas por dentro, ele conseguia ver tudo e todos como formas de aura.Assim que a princesa Yasmin apareceu em seu modo criança ele percebeu na mesma hora, ela vinha cumprir o tal julgamento que tanto faz nas pessoas que encontra e desconfia. Depois disso a princesa o liberou, mas antes entrou na carruagem e checou os quadros tendo certeza que ele era mesmo o homem procurado pelo seu pai. Ela disse que ia ignorá-lo por enquanto, mas numa próxima ocasião não faria vista grossa, depois foi embora.

― Boa tarde! ― disse ele cumprimentando uma bela mulher humana que passava com um cesto de frutas. A mulher sorriu respondendo de volta um outro belo boa tarde enquanto sumia de sua vista passando pelo lado da carruagem, ele seguiu viagem com um sorriso levando seus quadros para oferecer a outras pessoas.O deus dos sonhos tinha o deixado imbuído dessa missão e ele só pararia quando sua vida chegasse ao fim.


            Muito longe dali em outro território um titã de estatura e peso médio, pele branca, estava terminando de sugar a aura de sua vítima, um outro titã morto no chão, ele tinha acabado de completar mais um trabalho. Quando o último fio de aura saiu da boca da vítima, ele se levantou retirando o rosto marcado com várias escritas divinas de perto do outro com um olhar natural de quem não se sente nem mal nem bem depois de cumprir sua atividade. Ele fez surgir as faixas brancas e calmamente foi envolvendo seu rosto escondendo seus curtos cabelos escuros, seus olhos cinzas e as escritas que não paravam de brilhar. Até que seu rosto estava completamente enfaixado de novo.

― Vamos ver agora quem vou escolher ― disse ele consigo mesmo e olhou um conjunto de pinturas em suas mãos como se fossem pequenas fotos abrindo igual um baralho, entre elas estavam a irmã de Dante, Lilithi e alguns outros diversos titãs.

― Você me parece interessante ― disse ele puxando uma mulher e um curto sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele mentalmente tomava a decisão.


            Na Terra as pessoas ainda não paravam de falar sobre o ocorrido a tempos atrás, o portal, o dragão e os lutadores com armaduras e espadas brilhantes. A notícia na Tv se repetia em vários canais e em vários programas, cada um dos programas sempre apresentava uma hipótese nova tentando explicar o ocorrido.

Alguns diziam que tudo era alguém fazendo uma brincadeira, uma grande emissora ou um grande grupo de pessoas organizadas. Outros diziam que era algo religioso.Outros diziam que estavam chegando ao fim dos tempos, aqueles dois eram os cavaleiros do apocalipse e o dragão era suas montarias. Outros diziam que eram visitantes de outro mundo, e alguns até falavam que eram alienígenas.

            Cristina e Anita, mãe e irmã de Kyoran estavam terminando de arrumar a mesa, tinham acabado de almoçar. A Tv na sala mais uma vez começou a repetir a notícia e mostrar imagens sobre o dragão e a batalha dos dois que foi gravada por pessoas. Eles sempre traziam um ângulo novo, uma gravação diferente.

― Acha que Kyoran está bem mãe? ― perguntou Anita olhando a mãe abrir a torneira para encher uma panela com restos de macarrão pregados no fundo.

― Eu não sei filha, só os deuses devem saber ― disse a mãe que já tinha mudado um pouco sua forma de ver o mundo.

― Eu sinto saudades, queria que ele aparecesse para nos visitar de vez em quando, não deve ser tão difícil assim ― comentou Anita depositando os pratos na pia.

― Também tenho saudades.Mas eu sei que ele voltará, meu coração diz isso ― disse a mãe calmamente.

― Ele sumiu montado naquele dragão dentro do portal, brigou com Lilithi antes de sair ― disse Anita lembrando das imagens.

― Aquela moça era estranha e seu nome sempre me lembra um nome de demônio, mas ela parecia gostar de Kyoran de verdade ― disse Cristina pensativa.

― Ela ficava forçando Kyoran a ficar com ela, meu irmão não iniciaria um namoro tão rápido com uma mulher assim ― disse Anita, mas não conseguiu negar o fato de que até hoje, nunca havia visto mulher tão bonita como ela. Cristina ficou apenas pensativa.


            No subterrâneo do esconderijo de Órion, passando por alguns corredores nas partes mais profundas.Havia uma porta de metal reforçada com uma janela de grades, passando pelas grades e entrando, havia um quarto espaçoso todo feito de metal.Algumas partes nas paredes estavam até amassadas, correntes grossas se espalhavam em todas as direções presas nas paredes, uma garota estava no meio, de braços estendidos e pernas um pouco abertas com os pés presos sobre uma formação metálica no chão com vários cadeados.Seu corpo inteiro estava coberto por uma forte armadura de metal grossa, presas por todas aquelas correntes.Era possível ver em seu pescoço, uma das poucas partes descobertas, a estrela que representava um Domínio, não era qualquer Domínio, era a primeira, a verdadeira.

Ela não estava bem, não conseguia raciocinar direito devido sua intensa ira incontrolável, mas sentiu a batalha explodindo por cima dos vários metros de rochas acima de sua cabeça.Não conseguiu conter a adrenalina que bateu em seu corpo explodindo com milhões de vibrações por dentro e começou a gritar se debatendo violentamente.Suas tentativas de se soltar causavam até tremores por todo o local de tão forte que ela era enquanto as correntes rugiam juntas e se batiam nas fortes sacudidas. Ela queria participar, matar, esquartejar, destruir todos, acabar com tudo. Sua máscara de metal foi envolvida por um forte brilho vermelho, que fluía de seus olhos saindo através dos pequenos buracos que permitiam sua respiração. Ela continuava gritando alucinada e se debatendo. Alguns andares acima voltando para o salão onde todos os Domínios se reuniam junto a Akasha, Órion e a garota do capuz, eles se entreolhavam aturdidos e preocupados com os tremores gerados pela força da primeira Domínio. Órion, o Terceiro e a garota de capuz, eram os únicos a manterem um olhar calmo e despreocupado o que sempre aborrecia Akasha que não deixou de ficar desgostosa.

            Kyoran e Órion, mal vinham a hora de se reverem…