O Mundo dos Titãs

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Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor:Danilo Nascimento da Silva

“Eu, Kyoran”

Depois de voltar ao castelo, tudo ocorreu como combinado e os ligados levaram Lilithi com eles, soube de tudo através de Arzachell que ficou me fazendo companhia por um tempo na cantina. Tudo em que os titãs falavam e comentavam era sobre minha luta com a princesa Yasmin, muitos até me parabenizavam por isso.

            No dia seguinte quando estava saindo do quarto me deparei com Aiya que parecia ter acabado de chegar, ela aparentava estar um pouco ansiosa.

― Podemos conversar? ― perguntou ela. Claro, depois de saber que eu e Hina acabamos ela estava voltando ao ataque, típico dessa mulher, mesmo assim não seria bom atacar Órion com eu e ela meio brigados ou algo parecido.

― Depende ― disse tentando parecer natural. Eu queria que todas as princesas fossem simples e diretas como Yasmin.

― Você já decidiu a data do ataque e estamos aguardando os Iluminados chegarem para fazermos a reunião final, nós não podemos ficar agindo assim um com o outro ― disse ela preocupada.

― Por isso eu disse depende, se você não vier com as idéias estúpidas de me forçar a namorar você então podemos ter uma conversa civilizada ― disse sério.

― Eu imagino que isso deva ser realmente um incomodo a você, ser forçado a ter que aceitar essas decisões ― comentou ela baixando o olhar para o chão.

― Você agia completamente diferente de quando cheguei aqui a primeira vez, eu realmente te admirava ― fui dizendo e ela levantou o rosto me olhando. ― Depois você passou a ser uma mulher egoísta que só pensava em você, foi a partir desse ponto que aquela mulher fantástica que conheci no início começou a cair.

― Desculpe Kyoran, acho que você tem razão e por mais que eu diga que tudo isso foi só por você eu também estaria mentindo, concordo, eu sou egoísta, se eu pudesse eu teria você apenas pra mim, mas não vamos entrar nesses detalhes ― disse ela novamente baixando a visão.

― Então no que vamos falar?

― Você tem mesmo certeza sobre o que está fazendo? Você pode ser o titã da profecia, mas não é obrigado a cumprir essa missão ― observou ela voltando a me olhar.

― A decisão já foi tomada e não há mais nada a ser feito ― disse sem pensar muito. Ficamos um tempo em silêncio então ela voltou a falar.

― Tudo que rolou entre você e Hina era uma farsa? ― perguntou ela. Eu sabia que Hina gostava muito dela e se eu não dissesse a verdade então as duas nunca iam voltar a se dar bem.

― Óbvio que era, vocês estavam sendo muito chatos e eu não tive escolha ― reclamei já começando a me irritar.

― Não perguntei por nada referente a nós, não se preocupe ― disse ela se explicando.

― Então é só isso? ― perguntei.

― Sim, desculpe ter incomodado você, vou deixar você seguir seu dia ― disse Aiya se virando.

― Hey Aiya! ― chamei e ela se virou de volta me olhando curiosa. ― Volte a ser aquela princesa que conheci no começo, como Yasmin disse uma vez, acabe com essa obsessão por mim ― disse me lembrando das palavras de Yasmin, eu sabia que aquilo era relacionado a mim.

― Com licença ― Aiya sorriu toscamente e se virou caminhando, eu suspirei e segui para a cantina um pouco depois dela sumir.

            Depois de encher a barriga fui saindo e dei de cara com Ricardo que parecia estar me esperando.

― Agora vocês estão fazendo fila é? ― perguntei me lembrando que a pouco tive que conversar com Aiya.

― Dessa vez é diferente Kyoran, você escolhe, ou me conta a verdade ou eu conto tudo as duas princesas e o príncipe Yago, não deixarei que façam nenhum ataque com você enquanto não souber tudo que anda rolando e essa é sua última chance ― ameaçou Ricardo sendo direto, cheguei a olhar preocupado em volta pra saber se alguém tinha ouvido a conversa, sorte que todos os titãs pareciam apenas estarem de passagem passando por nós, saindo ou entrando na cantina.

― Eu não sou um traidor ― me adiantei.

― Vai falar dessa vez? ― perguntou ele, eu apertei os dentes me sentindo preso em uma jaula, se eu não contasse a verdade a ele com certeza cumpriria sua ameaça, ele estava sério sobre isso.

― Onde podemos conversar? ― perguntei.

            Ricardo me levou para o topo de uma das torres onde os Iluminados costumavam ficar me vigiando. Ficamos um tempo em silêncio enquanto eu olhava a movimentação do pátio, aqui no alto o vento era um pouco mais forte. O céu estava cobrindo o sol por trás por isso tudo parecia quase nublado. Roni teve que ficar pelo lado de fora do corredor, ele não pareceu se importar.

― Comece a falar Kyoran, já estamos sozinhos e aqui é seguro, eu tranquei a porta para ninguém conseguir entrar, aquela porta retém bem o som nem mesmo seu protetor ouvirá ― explicou ele.

― Você tinha razão, Lilithi está viva e tudo que fiz foi para esconde-la e mante-la segura ― disse sem me virar, eu estava de mãos apoiadas na parede que cercava a torre enquanto olhava o pátio abaixo.

― Fez isso por que a ama?

― É claro, ela fez e faria qualquer coisa por mim, como não se apaixonar e querer bem a uma mulher como ela? ― perguntei virando de lado, Ricardo acabava de  encostar do meu lado, ele olhava entre mim e o pátio abaixo mantendo um olhar sério e concentrado.

― Você sabe a quem ela serve Kyoran, sua lealdade pode estar se comprometendo enquanto planejamos esse ataque ― disse Ricardo me olhando de lado. Como eu tinha decidido contar a verdade, eu estava mais calmo, mesmo assim me corria um frio na barriga por está dizendo coisas que ninguém ainda deveria saber.

― Estou fazendo isso para libertar Lilithi dele e também para salvar a deusa Akasha que foi pega por Órion ― quando contei isso Ricardo se virou impressionado para mim.

― Deusa Akasha? ― perguntou ele surpreso. Então eu acabei contando essa parte da história também. Tive que explicar que ela caiu e que me encontrei com Órion levando Akasha embora.

― Por que você nunca disse isso aos outros Kyoran? O que te impediu? ― perguntou ele.

― Como eu iria explicar aos outros que estamos indo salvar uma deusa que um dia havia me guiado para a morte como já disseram antes? Como acha que Aiya reagiria a isso? ― perguntei olhando de lado e Ricardo na mesma hora voltou a ficar calmo.

― Huum ― resmungou ele.

― Você não pode falar sobre ela Ricardo, não pode deixar que eles saibam sobre as coisas que estou contando, nem sobre Lilithi ― disse olhando de lado.

― E sobre a marca que você carrega deles Kyoran, a parte maligna plantada em você por aquele Domínio, você ainda tem problemas em relação a isso? ― perguntou ele.

 Não achava necessário falar sobre isso, o problema é que eu tinha perdido o controle uma vez me irritando com ele e se eu ocultasse isso, ele com certeza me apertaria novamente para falar o que seria pior, continuar expondo a verdade parecia ser o melhor caminho.

― Às vezes eu sinto que perco um pouco o controle como aconteceu naquele dia entre nós, mesmo com a corrente que Arus me deu ― disse e mostrei a corrente tirando de dentro da camiseta enquanto segurava o pequeno cristal. ― Às vezes isso parece não me salvar de alguns efeitos quando me irrito ― expliquei. Ricardo ficou olhando em silêncio então eu guardei ela de volta dentro da camiseta.

― Isso é mesmo para proteger Lilithi? Ela ainda está no ninho? ― perguntou ele.

― Não, tive que tirar ela de lá porque Estela descobriu e tentou me chantagear ― disse o deixando surpreso. Eu não diria onde ela estaria mas pelo menos isso eu poderia dizer.

― Tudo que rolou esses últimos dias entre seu término com Hina fazia parte de uma farsa para não ficar com Aiya e a princesa Estela havia descoberto?

― Exato.

― Você decidiu me contar tudo, estou impressionado ― observou ele.

― Eu acho que você ia descobrir de qualquer modo. Então qual é a sua decisão?

― Manteremos o ataque, eu não vou contar nada Kyoran, mas tenho uma última pergunta ― como eu fiquei em silêncio olhando ele de lado ele prosseguiu. ― Algum dia pretende atacar esse lugar por qualquer razão?

― Por que eu faria isso? ― perguntei curioso.

― Acha que um dia você perderá o controle sobre esse seu ódio que cresce dentro de você? ― perguntou ele de novo.

― Isso eu não sei, mas eu acredito que quando o Deus das Trevas morrer eu estarei livre dessa coisa ― disse sendo sério, eu não contei pra ele sobre as vozes, ia ficar muito estranho então preferi manter segredo.

― Muito bem Kyoran, isso é tudo ― disse ele saindo.

 Me virei e vi ele seguindo para a porta de metal. Pelo menos agora eu estaria livre da pressão desse cara e de sua vigilância.

            Três dias depois daquilo, os Iluminados voltaram, eles me encontrariam caminhando no corredor em direção ao pátio enquanto eles entravam. Arus vinha na frente com Carlos do lado e o restante dos outros atrás. Quando ele me viu já veio diretamente em minha direção é claro.

― Que surpresa agradável encontrá-lo Kyoran ― disse ele mantendo um olhar neutro. Carlos ao lado ficou sorrindo de lábios cerrados e Kaylla mais atrás ficou silenciosa olhando.

― Bom ver vocês também ― menti permanecendo sério.

― Eu ouvi sobre as últimas coisas que rolaram por aqui Kyoran, devo dizer que fiquei bem surpreso ― disse Arus na sua forma séria e quase com frieza.

― Você se refere a minha briga com Hina? Eu não vou mais cair na de vocês, não vou namorar nem Aiya nem Hina ou qualquer mulher apenas porque o rei Aziel quer ― disse firme. Carlos olhou segurando um riso e Arus ficou com um olhar ainda mais frio, embora ele estivesse tentando esconder isso de mim.

― Kyoran eu não me referia a isso, ia dizer sobre o seu combate com Yasmin e sobre sua decisão de finalmente querer atacar o mal que consome essas terras, além do que, o rei não tem mais interesse em sua vida amorosa, você já teve muitas chances para provar onde criaria raízes, já fez sua escolha, isso não importa mais para nós ― disse Arus, sua voz fria me deu um gelo por dentro, mesmo assim eu estava convicto do que tinha falado e não mudaria.

― Fico feliz que tenham entendido ― disse firme.

― Estamos seguindo para o escritório, mais tarde teremos uma última reunião para falar sobre esse ataque, aguardo sua participação ― dizendo isso Arus seguiu. Carlos parou ao meu lado e apoiou sua mão em meu ombro, mesmo eu estando parado esperando eles passarem.

― Espero que tenha melhorado depois do nosso último encontro ou você será uma completa decepção quando a nossa hora chegar ― disse ele sorrindo, depois me soltou e seguiu caminho, por alguma razão as palavras deles me deram outro gelo por dentro. Kaylla tentou passar por mim mantendo sua expressão séria e eu a segurei pelo braço.

― Preciso conversar com você ― disse bem rapidamente surpreendendo ela. Arus e Carlos olharam paras trás mas não se importaram, Tauros e Felicia passaram caminhando sem se importarem também.

― Então eu sou sua última opção? ― perguntou Kaylla me olhando com um leve sorriso, seu olhar me estudava com curiosidade.

― Venha comigo ― disse puxando ela para o rumo contrário dos Iluminados, eu estava tratando ela como um tipo de conhecida devido minhas lembranças da outra linha do tempo, não fiquei pensando em como aquilo deveria ser estranho pra ela. Esperei os Iluminados sumirem, enquanto olhava várias vezes para trás para só então, levar Kaylla para o meu quarto, Rania ficou acompanhando tudo de longe como de costume. Todos os titãs que viram toda a cena ficaram chocados, eu parecia poder domar qualquer mulher, as princesas e até Kaylla, a mulher mais desejada por qualquer homem, além disso, ela era uma Iluminada, fazia parte de um grupo de titãs de elite.

            Kaylla entrou no meu quarto um pouco incrédula. Tranquei a porta e me virei pra ela, ela ainda estava olhando a cama.

― Sente-se ― disse sério e me sentei primeiro. Ela pareceu pensar um pouco depois sentou-se do meu lado. Até o momento ela não tinha ativado sua benção, mesmo sem isso ela ainda continuava atraente e muito linda.

― Sabe por que te chamei aqui?

― Eu não consigo imaginar o porque, no nosso último encontro você fez de tudo até conseguir fugir de mim ― disse ela com as mãos no próprio colo me olhando de lado. Eu estendi minha mão e segurei as delas que estavam agarradas uma na outra, deixei minhas mãos as cobrindo. Eu senti que ela estava mais retraída do que o comum, mesmo depois daquela situação nós ainda nos vimos outras vezes e ela me tratou um pouco diferente, como quando soube entre eu e Hina e das vezes que se despediu de mim.

― Porque dentre os Iluminados você é a única em quem eu posso confiar ― disse olhando fixamente nos olhos dela. Eu me lembro que ela havia salvado Sammy sem se importar enquanto Arus parecia não querer, fora que durante todo o tempo ela havia cuidado bem de mim, mesmo que tivesse sido por interesse, ela tinha feito e isso era o que me importava.

― Confiança não é bem o que eu queria de você ― disse ela com um meio sorriso.

― Mas tudo começa com confiança ― disse e aproximei o rosto enquanto fechava meus olhos, beijei os lábios dela suavemente e ela me correspondeu como já seria esperado. Não importa quantas vezes eu beijasse essa mulher, mesmo não tendo paixão o desejo de me aventurar em todo o resto do seu corpo sempre era ativado quando nossas línguas se cruzavam, ainda que fosse por poucos instantes. Seus lábios eram sempre macios, quentes e seu hálito era delicioso ― Depois da confiança vem outras coisas ― disse fazendo uma pausa. Toda vez que eu a beijava ela gostava, isso não tinha mudado desde a outra linha do tempo. Ela ficou com os lábios meio abertos respirando um pouco mais acelerada.

― O que quer de mim Kyoran? Não imagino que queira se deitar comigo justamente agora ― observou ela.

― Às vezes perde a graça da conquista se uma garota não se faz de difícil ― disse sorrindo sem graça e acrescentei. ― Mas não trouxe você aqui pra isso.

― Então diga o que quer?

― Quero saber por que Arus estava me tratando daquela forma, quero que me conte o que anda ocorrendo no grupo de vocês ― disse e apertei mais firme as mãos dela. Ela tentou se levantar como se aquilo tivesse a assustado, então eu soltei suas mãos e abracei cruzando os braços sobre ela impedindo dela fugir.

― Você é a única que posso perguntar isso Kaylla, não me deixe na mão ― disse apressado a segurando. Ela pareceu desistir de tentar fugir de mim.

― Uma vez que suas decisões foram tomadas, os Iluminados apoiarão você Kyoran ― disse ela me olhando de lado com seu olhar sério, eu sabia que ela estava me escondendo algo.

― Eu sei que você é diferente deles Kaylla, você se importa de verdade, posso ver isso no fundo dos seus olhos, então, só uma vez me diga a verdade ― disse a encarando, nossos lábios estavam bem pertos um do outro novamente, ela corria seu olhar por meus olhos e minha boca.

― Você está vendo coisas demais em mim Kyoran ― disse ela tentando se fazer de difícil.

― Você ainda quer fazer parte da minha vida? Essa é sua chance ― perguntei olhando ela fixamente.

― Se você pelo menos estivesse falando a verdade ― observou ela dando uma brecha.

― Do que está falando?

― Você tem outra Kyoran, caso contrário não estaria agindo tão naturalmente comigo, acha que não percebo isso? ― perguntou ela.

― Como sabe disso?

― Sei porque nenhum homem tem tanto controle assim como você tem por mim ― disse ela permanecendo séria.

― E isso não é bom? Você queria que eu fosse um simples boneco obedecendo todos os seus pedidos? Ou prefere um homem verdadeiro que sente vontades próprias, alguém com ações verdadeiras e inesperadas fora do seu controle ― perguntei, fechei os olhos e beijei ela novamente, ela sempre me respondia mesmo tentando se fazer de difícil em relação a falar.

― Você jamais vai encontrar sinceridade nessa vida Kaylla, enquanto viver qualquer homem vai cair em seus pés pelo que você é por sua benção não vai encontrar outro como eu, mesmo que eu esteja de fato me envolvendo com outras mulheres ― disse. Isso não a irritou, na verdade a deixou um pouco surpresa.

― Fala isso da boca pra fora.

― Você acha mesmo que não sinto tesão? Que não tenho vontade de arrancar suas roupas e realmente transar com você? Eu sinto, mas posso segurar esse desejo e reprimi-lo dentro de mim o quanto eu quiser. Fazer você ser uma namorada minha não seria nada impossível, é claro, com todas as coisas que rolam pelo castelo isso seria um pouco complicado agora ― expliquei.

― E mesmo assim você me trouxe para o seu quarto ― indagou ela.

― E é exatamente por isso, eu quero você em minha vida, eu quero sua confiança, eu quero tudo. Eu quero a verdade e só você pode me dar.

― Que verdade?

― Qual é o plano do rei Aziel para mim quando eu derrotar o Deus das Trevas? ― perguntei. Kaylla ficou um pouco pensativa deixando seu rosto se virar para frente.

― Não há nenhum plano ― disse ela.

― Não minta pra mim! Arus não deixaria toda aquela história de lado tão facilmente Kaylla ― eu apertei o braço esquerdo dela com as duas mãos.

― Eu não tenho nada a contar pra você ― ela se levantou se soltando das minhas mãos e eu me levantei atrás.

― Kaylla… ― fui dizendo e ela me interrompeu.

― Já chega! Você acha que sou o que? Um brinquedo na sua mão que você pode chegar e ter na hora que quiser? Você não sabe nada sobre mim! Não sabe nada! ― disse ela brigando e quando tentei segura-la ela me empurrou. ― E não me toque mais! Eu não sou uma vagabunda!

― Não precisa gritar ― disse tentando lembrá-la que outros estariam ouvindo. Eu me senti deprimido, queria poder prometer algo a ela pra ganhar mais sua confiança mas não tinha como, tendo Lilithi como namorada qualquer promessa seria impossível. Então eu me lembrei do que os irmãos Roni e Rania disseram sobre homens terem mais de uma mulher, Lara também tinha dito isso em outra linha do tempo. Eu sabia que para Kaylla nada poderia convencê-la além de ações amorosas.

― Então pare de me tratar como se eu fosse alguma estúpida Kyoran, eu tô cheia de todos apenas quererem me usar para os seus próprios objetivos sem se importarem com o que penso ― reclamou ela cruzando os braços irritada. Na outra linha do tempo ela tinha chorado, mas de certa forma não era tão diferente assim.

― Diga o que você quer de mim? ― perguntei sério sem tentar fazer nada. Ela me estudou com seus lindos olhos azuis como o mar e por alguns segundos não disse nada.

― Diga Kaylla, como posso ter seu apoio? ― insisti.

― Você já sabe como, eu não preciso dar essa resposta a você ― disse ela ainda irritada.

― Eu quero ouvir de sua boca ― insisti.

― Me faça sua mulher, sua namorada, mesmo que tenha outra em jogo eu não ligo, mas me faça sua ― disse ela. Meu coração tinha acelerado ao ponto que parecia estar fervendo.

― Eu prometo a você, que quando isso acabar, ou vou abrir um espaço para nós, não sei como ainda e não faço idéia de como iremos fazer, mas você tem minha palavra, que tratarei você bem e te darei o que você quer sempre que eu tiver a chance, mas, você não será minha prioridade.

― Claro que não, eu serei sempre a segunda ou terceira prioridade ― disse ela com certo desdém, ela tinha ficado um pouco irritada.

― Isso é tudo que posso oferecer a você ― disse cuidadoso.

― Hunf! Você não parece mesmo está me enganando então vou ser direta. A princesa Estela mandou uma carta que foi lida pelo próprio rei Aziel na frente de todos, nessa carta ela conta os detalhes sobre uma certa mulher que você está escondendo e que deveria estar morta, o rei não ficou nem um pouco satisfeito ― disse ela e eu gelei completamente por dentro. Os Iluminados sabiam sobre Lilithi, Estela tinha mesmo contado.

― Todo o ataque será cancelado? ― perguntei de olhos arregalados. Kaylla continuava de braços cruzados me olhando.

― Não, na carta você não foi posto como traidor mesmo tendo feito isso, o rei decidiu que ainda vai dar esse último apoio, o ataque ainda ocorrerá ― explicou ela.

― E o que mudou? ― perguntei curioso.

― Eu não sei, ele dispensou a todos e pediu apenas a estadia de Arus, o que conversaram depois disso eu não faço idéia ― disse ela.

― E o que você acha que pode acontecer?

― Não tenho certeza, se eles vão tentar caçar ela ou desistir de tudo, só tome cuidado ― disse ela baixando os braços.

― Obrigado Kaylla, obrigado de verdade ― disse sério tentando sorrir mas estava muito nervoso ainda.

― Obrigado coisa nenhuma, você tem uma promessa comigo, me deu sua palavra ― lembrou ela.

― E eu vou cumprir ― então eu abri os braços e abracei, deixei meu queixo em seu ombro enquanto ela fazia o mesmo. A fragrância do cheiro dela era ótimo.

― Eu vou esperar por essa hora ― disse ela do meu lado. Eu apenas continuei abraçado com ela enquanto processava tudo o que ela tinha acabado de me contar.

― Eu nem preciso dizer pra você não agir estranho, não é? Se eles desconfiarem que contei isso a você, eu estarei fora do grupo deles e você terá que arcar com as consequências ― disse ela.

― Você não imagina o quanto sou bom em guardar segredos ― disse afastando a cabeça do ombro dela e ela fez o mesmo, ficamos nos olhando.

― Agora eu sou como uma amante? ― perguntou ela.

― Acredito que sim ― disse e dei um selinho nela.

― Isso não é uma farsa?

― Você quer que seja?

― Com certeza não ― disse ela ficando um pouco feliz.

― Então não é ― disse e beijei ela novamente de língua. Eu estava traindo Lilithi e estava de certa forma gostando disso, isso era um pouco assustador, mesmo que eu tivesse feito isso pra ganhar informações, parte de mim gritava pedindo os lábios e o corpo de Kaylla e eu não sabia se tinha a ver com as vozes, mas quase podia escutar uma risada ecoando dentro do meu ser. Não pude deixar de sorrir enquanto a beijava, ter uma mulher daquelas babando por mim não era nada mal. Quando eu me dei  conta desses pensamentos eu parei de beijar e me afastei dela dando um passo para trás. As vozes não pareciam mais dizer nada em minha mente, elas estavam quase se fundindo a mim e isso me assustou.

― O que foi? ― perguntou ela.

― Já ficamos muito tempo aqui, melhor sairmos se não os outros vão achar estranho ― disse.

― Concordo ― disse ela se virando para porta sem desconfiar de nada. Será que eu realmente fiz as ações certas? Era realmente necessário  fazer aquelas promessas a Kaylla? E por que eu estava feliz pelo final? Eu não pude deixar de me perguntar mesmo sorrindo.